Como lidar com PCD e alunos com diagnóstico psicológico durante o ensino remoto

por | set 16, 2020 | Artigo, BNCC, Formação de Professores, Práticas Pedagógicas

De um dia para o outro, nossas creches, escolas e universidades foram fechadas. Professores, estudantes e familiares precisaram se adaptar a uma rotina totalmente nova, a qual experimentamos a implementação de um Ensino Remoto em caráter Emergencial (E.R.E.). Entretanto, com o avanço da pandemia da Covid-19 no Brasil, testemunhamos aquilo que esperávamos serem poucas semanas de ajustes se transformarem meses. Com isso, mudanças profundas no paradigma educacional, ou seja, a adequação a um novo normal, não podem mais ser adiadas. Pontuamos que esse novo normal não pode deixar de olhar para as desigualdades da educação brasileira.

Ainda em março, o Ministério da Educação autorizou a realização de aulas remotas para a educação básica. O que era antes proibido para o ensino fundamental, com a concessão apenas para complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais, e permitido de forma parcial e reduzida no Ensino Médio, recentemente regulamentado com a reforma do ensino médio, rapidamente, ganhou força e forma nos últimos meses, sendo permitido, inclusive, a substituição das aulas presenciais e contagem das horas aulas remotas para efeitos de cumprimento das 800 horas que compõem o ano letivo. No que diz respeito aos Estudantes com Necessidades Educacionais Especiais (E.N.E.E.), não existe legislação específica que normatize qualquer tipo de Ensino Remoto. Apesar disso, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva prevê que as pessoas com deficiência não sejam excluídas do sistema educacional geral, seja qual for a sua modalidade, sob alegação de deficiência.

Questões relacionadas à capacitação docente para este tipo de atuação, ao domínio das ferramentas digitais, à infraestrutura, etc., trazem insegurança e apreensão. Se por um lado, não podemos nos omitir de oferecer um ensino de qualidade aos nossos estudantes, por outro, o que fazer diante desse novo desafio, especialmente em relação aos Estudantes com Necessidades Educacionais Especiais (E.N.E.E.)?

Tais estudantes demandam um olhar diferenciado dos professores sempre, mas tornaram-se ainda mais indispensável no momento em que vivemos. O parecer do Conselho Nacional de Educação (C.N.E.), publicado ainda em abril, apresenta como premissas para o E.R.E. ações voltadas à para a manutenção de vínculo, a fim de evitar o aumento das desigualdades, da evasão, da repetência e de retrocessos no desenvolvimento destes estudantes. O mesmo parecer do CNE também prevê que sejam adotadas medidas de acessibilidade e que seja assegurado o atendimento educacional especializado, através da adaptação de materiais didáticos e da orientação e apoio à família dos estudantes. Essas ações são particularmente importantes para os E.N.E.E., pois incluem iniciativas de mediação e acolhimento, não só pedagógico, mas também emocional.

 

O que efetivamente podemos fazer para oferecer o melhor ensino remoto aos alunos com necessidades educacionais especiais?

 

Aproxime-se dos alunos

O primeiro ponto é que, com a distância, aumenta também a atenção que precisa ser dispensada a estes estudantes. Sendo assim, o professor deve contar com o suporte dos profissionais que atuam no Atendimento Educacional Especializado (A.E.E.) e dos familiares que, de forma geral, já são muito participativos no processo de ensino-aprendizagem dos seus filhos. O planejamento de estudos dos E.N.E.E. tem como ponto de partida o reconhecimento das competências e habilidades que cada um possui e domina, além das dificuldades enfrentadas por eles. O atendimento individualizado, além de permitir a aproximação com o aluno e o acolhimento de suas angústias, garante aos Estudantes com Necessidades Educacionais Especiais planos de estudo individualizados, que levem em consideração as demandas individuais de cada um.

 

Conheça suas habilidades e limitações

Mesmo antes de se pensar em aulas remotas para a educação básica, muitos destes estudantes já faziam uso de ferramentas de acessibilidade. É muito comum o uso de programas leitores de tela por alunos deficientes visuais ou de tradução de conteúdos digitais da Língua Portuguesa para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), como alunos com surdez ou deficiência auditiva, por exemplo. Ao mesmo tempo, muitos já viviam em algum tipo de isolamento por serem considerados “especiais”, afastados do convívio geral por barreiras atitudinais, de locomoção, de comunicação, etc. Entender o histórico dos estudantes, seus interesses e suas limitações, amplia as possibilidades de trabalho e derruba barreiras que podem ter sido levantadas pela simples falta de conhecimento.

 

Seja parceiro das famílias

Por mais estruturada que seja uma família, a residência não é organizada para oferecer a educação. Os pais não são professores e, ainda que atuantes indispensáveis na educação dos seus filhos, precisarão de suporte da escola. Em casa, não existe uma experiência escolar compartilhada, seja pela experiência docente, seja pela interação entre os alunos. Deste modo, as atividades não podem ser as mesmas que as desenvolvidas no ambiente presencial da escola. Entretanto, é possível aproveitar a experiência domiciliar por meio de atividades relacionadas às tarefas domésticas, como a exploração da utilização de medidas em receitas feitas na cozinha ou das transformações químicas que ocorrem para a limpeza dos ambientes. A experiência educacional não pode e, nem deve, ser desassociada da experiência de vida. Aproveitar e explorar o ambiente doméstico é atuar no sentido de favorecer a autonomia estudante.

 

Garanta que os materiais e recursos sejam acessíveis

Qualquer material ou atividade deve ser acessível aos estudantes (ou aos seus familiares), a fim de evitar frustração, aumento de ansiedade e afastamento do ambiente escolar, ainda que virtual. Conhecer as ferramentas de tecnologia assistiva suportadas e disponíveis pela sua instituição e, se possível, usar uma tecnologia que já é conhecida pelo seu aluno, são estratégias imprescindíveis. Existe um mundo de possibilidades. Geradores de legenda, assistentes de foco, controle pelos olhos, ditados, etc. Ambientes controlados, intuitivos e acessíveis têm o potencial de reduzir o estresse e manter o interesse dos alunos.

Para estudantes com problemas relacionados à saúde mental, busque estratégias relacionadas a manutenção do foco e redução do estresse, como a utilização de jogos. Um exemplo interessante é o Mindful Knight, um jogo aberto e desenvolvido para a educação com o objetivo de estimular a criatividade, a colaboração e a solução de problemas em um ambiente imersivo.

No caso dos estudantes com deficiência intelectual e alguns casos de transtorno do espectro autista (TEA), podem ser aplicadas estratégias voltadas para o enfrentamento dos obstáculos relacionados à linguagem e comunicação. A utilização de materiais concretos e interativos, como jogos de tabuleiro, blocos de construir, instrumentos musicais, etc. pode ajudar a manter o estudante atento e interessado, atente-se na idade e na capacidade de realização pelo aluno, partindo de uma atividade mais simples e repetitiva para uma mais complexa. Uma iniciativa interessante de pesquisadores que fazem parte do ambulatório de Autismo do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (TEAMM – Unifesp) foi o lançamento de 15 vídeos voltados para pais de crianças com TEA, você encontra mais informações aqui nesta notícia da Agência Fapesp.

Em relação à outras deficiências, junto a todas as ferramentas de acessibilidade presentes nos meios digitais, recorra e explore outros sentidos dos alunos. Estudantes surdos, por exemplo, podem ser estimulados através da música (pela percepção das ondas sonoras) e dança, além do uso predominante de imagens, relacionando as mesmas com a Linguagem Brasileira de Sinais. E com estudantes deficientes visuais é possível explorar a utilização de materiais fora do meio digital que apresentem diferentes formas e texturas, como sementes e grãos, colas em relevo, papéis texturizados, etc.

 

Explore um mundo de possibilidades

É possível aproveitar os desafios impostos pela pandemia para dar asas à criatividade, à improvisação, à fuga dos comportamentos rotineiros, e buscar novas respostas aos novos problemas apresentados, deixando de lado a prática de responder perguntas novas com respostas antigas. A partir disso, como cada estudante é único, as respostas são individuais. Sendo assim, favorecer atividades relacionadas às demandas individuais de cada um é primordial.        

O professor deve reconhecer as barreiras que os estudantes têm para aprender e planejar ações visando sanar tais questões. A educação especial sendo percebida como uma educação comum, mas na perspectiva da educação inclusiva, considera a diferença de todos nós, e não só de algumas pessoas. Tal perspectiva promove a educação especial ao entregar o que esses estudantes precisam, removendo os obstáculos que os impedem de ter participação plena no processo educacional, assegurando-lhes a autonomia possível.

Gabriela LianoGabriele Liaño é licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Ecologia, também pela UFRJ. Atualmente é professora efetiva do Colégio Pedro II (CPII), onde atua como professora de biologia e como coordenadora pedagógica de ciências e biologia do campus Realengo II. Integra o Núcleo de Pesquisa sobre Linguagens no Ensino de Ciências (NuPLEC - CPII), onde realiza pesquisa na área de produção de material didático adaptado para a inclusão de alunos cegos, além de atuar na formação continuada de professores através da realização de palestras, minicursos e oficinas relacionados à esta temática.