Comunicação popular e educação: uma mistura potente

por | jul 28, 2020 | Artigo, Cultura, Formação de Professores, Práticas Pedagógicas

Celulares e internet são distrações nas salas de aulas, em reuniões de trabalho e em outros espaços formais. Isso foi o 92% dos educadores já perceberam, o que os leva a usar tecnologias como dispositivos pedagógicos, como mostra a pesquisa do Movimento Todos Pela Educação. 

Neste texto, compartilho a experiência de oficinas de comunicação popular para jovens do estado do Mato Grosso, que resultaram em campanhas digitais, jornais e vídeos sobre suas realidades.

Embora as oficinas realizadas tenham ocorrido fora do ambiente escolar formal, a comunicação popular, se incorporada à sala de aula, possui dois grandes potenciais: 1) É uma ferramenta para despertar o interesse crítico de jovens por temas diversos e 2) Através do “fazer comunicação”, os estudantes enfrentam desafios da educação básica de forma criativa. Antes de partir para estes dois pontos, vale uma breve explicação sobre o contexto e os objetivos em que estas formações foram feitas.

Os Olhos d’Água

Os jovens comunicadores fazem parte da Rede Juruena Vivo, uma organização civil que visa garantir o direito das populações que vivem ali, além de valorizar as formas sustentáveis de desenvolvimento já existentes na região. Por isso, os núcleos de comunicação foram batizados como Núcleos Olhos d’Água, na intenção de que se tornem porta-vozes das populações do Juruena.

V Festival Juruena Vivo em Juína, no estado do Mato Grosso em parceria com comunicadores populares da Rede Juruena Vivo

As oficinas de comunicação popular foram realizadas para jovens de diferentes realidades: agricultores familiares, indígenas, integrantes de coletivos e organizações sociais, dentre outros perfis. O objetivo foi oferecer os primeiros subsídios para que os e as participantes pudessem contar suas próprias histórias e conectá-las com a bacia do rio Juruena, na região noroeste de Mato Grosso, afetada por mais de uma centena de projetos de hidrelétricas.

As oficinas ocorreram em três módulos (Mídias Sociais, Jornais e Audiovisual) para três núcleos compostos por jovens. Cada módulo teve a duração de três dias em cada um dos núcleos, e cada oficina foi atrelada a um produto (uma campanha digital, um jornal e um vídeo) para que os/as participantes tivessem a oportunidade de acompanhar todo o processo de produção, incluindo sua finalização.

Em cada núcleo, o plano de aula e a metodologia foram adaptados para atender as diferentes necessidades e curiosidades. Como norte seguiu-se uma abordagem baseada na ideia do “faça você mesmo”, do aprender fazendo. Para entender mais sobre o tema você pode acessar a Cartilha Comunicação Popular.

Este processo de formação foi bastante rico e aqui gostaria de destacar dois pontos que podem ser inspiradores para o ensino em sala de aula, aproveitável em diferentes áreas do conhecimento.

  1. A comunicação popular e o interesse crítico

A primeira lição que este processo nos ensinou é que o “fazer comunicação” é interessante para os jovens e instiga-os a pesquisar sobre temas que sobre os quais, aparentemente, não se interessam  – ou para os quais não foram apresentados ou estimulados previamente a apresentar interesse.

No caso das oficinas, fazer uma campanha digital para Rede Juruena Vivo foi uma forma de incentivá-los a entender a própria região onde vivem como uma bacia hidrográfica e o porquê de pensá-la desta forma. Ao fazer um jornal completo, definindo as pautas, realizando entrevistas, escrevendo os textos, selecionando fotos, os participantes se debruçaram sobre suas próprias realidades.

Pesquisaram sobre agrotóxicos na bacia do Juruena, sobre pinturas corporais e ervas medicinais indígenas e sobre experiências sustentáveis na agricultura. Os vídeos foram igualmente estimulantes neste sentido. O núcleo indígena, por exemplo, contou a história da Terra Indígena Japuíra, reconquistada pelo povo Rikbaktsa.

Além disto, o processo de entrevistar pessoas em suas aldeias, comunidades, associações aproximou os estudantes de suas realidades. Em uma das entrevistas sobre ervas medicinais, o casal indígena entrevistado pela equipe de comunicadores populares contou que muitos conhecimentos sobre as ervas estão se perdendo. Aquela entrevista serviu justamente para valorizar a prática tradicional e para que estes jovens discutissem essa questão.

  1. “Fazer comunicação” e a educação básica

Uma dos maiores impasses enfrentados durante as oficinas de comunicação foi a escrita. Muitos dos participantes apresentavam dificuldades na produção de texto. No entanto, longe de ser uma barreira, essa dificuldade tornou-se um desafio.

Em um dos núcleos, durante a oficina de jornal, a professora de parte dos alunos na escola rural, que também participava da oficina, chegou a expressar que nunca os havia visto tão estimulados a escrever. Eles ficavam além do período para terminar os textos, esforçando-se para fazer as matérias em formato jornalístico e por melhorar cada ponto sugerido pelas instrutoras.

A ideia de produzir uma matéria, de aprender as técnicas do jornalismo (entrevista, consulta de fontes, etc) tornou interessante a produção textual. Incorporar a ideia de fazer comunicação popular na sala de aula pode tornar o processo de aprendizagem mais dinâmico e divertido.

Convidamos você a conhecer alguns dos materiais que nasceram dessas oficinas e engajar suas salas de aula em atividades de reconhecimento das territorialidades dos jovens envolvidos nas suas práticas pedagógicas, e no reconhecimento das diversas territorialidades de nosso país. Confira:

Livia Moreira de Alcantara