Historicamente, meninas e mulheres encontraram muitas barreiras para terem acesso à educação. Durante muito tempo, foram proibidas de se educar da mesma forma que homens, sendo destinadas apenas ao treinamento para o matrimônio e a maternidade.

Esta dificuldade de acesso à educação, especialmente a formal, não é mera coincidência, mas consequência das muitas dificuldades encontradas por mulheres em alcançar efetiva cidadania e independência política e financeira. Neste cenário despontam algumas figuras que se destacam na luta pelo direito das mulheres à educação, como é o caso de Nísia Floresta Brasileira Augusta, ou apenas Nísia Floresta, pseudônimo de Dionísia de Faria Rocha, considerada a precursora do movimento feminista no Brasil.

Nísia Floresta nasceu no interior do Rio Grande do Norte em 1810. Foi uma grande educadora brasileira, escritora com quinze volumes publicados em três línguas diferentes e muito preocupada com a educação de mulheres, indígenas e escravizados. Fundou, em 1838, no Rio de Janeiro, o Colégio Augusto, com uma proposta pedagógica revolucionária para a época: educar as meninas para além do casamento e da maternidade, contemplando além dos conteúdos tradicionais de escolas femininas, os mesmos conteúdos e padrões de qualidade dos melhores colégios de meninos do período.

Segundo a pesquisadora Heleieth Saffioti, a educação de meninas no Brasil no século XIX era muito restrita, havendo escolas separadas para meninos e meninas com uma grande diferenciação em seus currículos: a educação feminina estava reduzida ao estudo de uma língua estrangeira, geralmente o francês, música e prendas domésticas; Nísia, porém, acreditava que a educação poderia ser uma ferramenta para a emancipação das mulheres.

Apesar de toda a sua produção intelectual, Nísia não teve seu talento reconhecido e é um nome pouco conhecido no Brasil, especialmente fora da esfera da pesquisa feminista, o que se deve, de acordo com a pesquisadora Constância Duarte, ao fato de ela ter estado à frente de seu tempo, lutando por causas republicanas, abolicionistas e feministas em meados do século XIX.

A emancipação das mulheres pela educação também é parte da luta de Malala Yousafzai, jovem paquistanesa que é a pessoa mais jovem a ganhar um Prêmio Nobel da Paz, com apenas 17 anos de idade. Malala escrevia no blog “Diário de uma estudante Paquistanesa” sobre seu amor pelos estudos e a proibição às meninas de frequentarem a escola pelo Talibã — grupo fundamentalista islâmico que controla a região do vale do Swat onde a jovem vivia. Em outubro de 2012, com apenas 15 anos, Malala sofreu um atentado pelas mãos do talibã, sendo baleada na cabeça e precisando ser levada à cidade de Londres no Reino Unido para cirurgia. Desde então, a jovem vive na Inglaterra com sua família por conta da perseguição que sofre, sendo acusada de desrespeitar o Islã e tem continuado o ativismo em prol do direito à educação de meninas e mulheres no mundo todo.

Percebemos então que, dois séculos depois, a luta de meninas e mulheres pelo direito de frequentarem a escola e de se educarem da mesma forma que meninos persiste. Segundo o relatório lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em 2016:

Meninas de 5 a 14 anos passam 40% mais tempo — ou 160 milhões de horas por dia — em atividades domésticas não remuneradas e coletando água ou lenha em comparação a meninos na mesma faixa etária no mundo todo […].

O relatório mostra que crianças do sexo feminino possuem menos tempo para se dedicar aos estudos e brincadeiras do que crianças do gênero masculino, pois as meninas gastam mais horas em atividades domésticas do que os meninos. No Brasil, um levantamento realizado pelo Instituto Unibanco em 2018, com base em pesquisa do Pnad de 2015, revelou que as meninas eram mais que o dobro dos meninos entre os jovens que estavam fora da escola e sem exercer alguma atividade remunerada, dedicando-se a trabalhos domésticos e cuidando de filhos ou de irmãos mais novos.

Além disso, de acordo com o estudo de Estatísticas de Gênero, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano de 2018,

As mulheres trabalham, em média, três horas por semana a mais do que os homens, combinando trabalhos remunerados, afazeres domésticos e cuidados de pessoas. Mesmo assim, e ainda contando com um nível educacional mais alto, elas ganham, em média, 76,5% do rendimento dos homens.

Por estes e outros motivos, as Organizações das Nações Unidas (ONU), criaram, a partir de 2012, o Dia Internacional da Menina, comemorado no dia 11 de outubro, véspera do Dia das Crianças, como uma forma de colocar em pauta discussões sobre igualdade de gênero para meninas do mundo todo.

A iniciativa, proposta pela Organização Não Governamental Plan International, é um convite a todas as pessoas do mundo a refletirem sobre a desigualdade de gênero e formas de combatê-la, e o acesso à educação é a principal ferramenta para que meninas se emancipem e alcancem a plena cidadania.

Professor, que iniciativas você e a escola em que trabalha têm realizado para garantir a equidade na educação entre meninos e meninas? Não nos esqueçamos: a luta pelos direitos das mulheres também envolve o ambiente escolar.


Chayene Santana

Graduanda em Pedagogia/Univesp e graduada em História/Unesp. Atuou na produção dos planos de aula de História para a Revista Nova Escola e leciona História, Filosofia e Sociologia para Ensino Fundamental e Médio.