Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes.
― Paulo Freire 

Quantos de nós senta no fundo da sala pra ver se fica invisível?
― Emicida 

O pedagogo Paulo Freire afirma que os conhecimentos são diferentes e não implicam em hierarquizações. Ou não deveriam implicar. Desde que o Brasil é Brasil, há uma perseguição e repressão às manifestações culturais e aos saberes da população negra e das populações marginais em geral. É de conhecimento geral a histórica perseguição à capoeira, ao candomblé, ao samba, ao Hip Hop etc.

Um dos meios utilizados para essa repressão aos saberes tidos como menores (ou não oficiais) é a escola: a grade curricular não é feita ao acaso, mas é fruto de uma seleção, e essa seleção é marcada por uma leitura eurocêntrica e elitizada do mundo. Ainda predomina, nos dias atuais, a educação bancária, aquela definida por Paulo Freire como a educação na qual “o saber é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber”. Isto é, o professor é tido como o que detém todo conhecimento e deve derramá-lo sobre a mente vazia do aluno.

Um dos grandes problemas enfrentados pelos professores, além da baixa remuneração, falta de apoio, ausência de uma estrutura escolar adequada e a dificuldade em manter a ordem entre alunos, é a fuga dos estudantes. De acordo com o Relatório de Desenvolvimento 2012 do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) com 24,3%, o Brasil tem a terceira maior taxa de abandono escolar entre os 100 países com maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Esse problema afeta principalmente as escolas das periferias. 

Podemos elencar diversos fatores que causam essa evasão: gravidez na adolescência; a necessidade de trabalho; a cooptação para o crime; a falta de incentivo dos pais, etc. Há diversos fatores que fogem ao nosso alcance imediato, mas existe um que pode (e deve) ser refletido entre os educadores: a falta de atrativos ao estudo dentro da própria escola

Numa pesquisa realizada pelo Observatório da Juventude — Zona Norte, com jovens frequentadores do Rolezinho de Funk, no Centro Cultural da Juventude (CCJ), na zona norte da cidade de São Paulo, constatou-se que a maioria dos jovens nunca estudaram a respeito do funk em sala de aula. Casos como o do professor de filosofia do Distrito Federal, que utilizou uma letra da Valesca Popozuda, são ainda muito raros. Em diversas aulas são utilizadas letras de artistas da Música Popular Brasileira, porém é raro o uso dos conteúdos de funk. 

É reproduzido aqui o modelo de educação bancária que ignora a bagagem do aluno na construção do conhecimento, e pode ser ele um dos fatores que levam a evasão de alunos que não se reconhecem no espaço da sala de aula. Istvan Mészaros propõe, na obra “A Educação para além do Capital”, uma educação para a vida e não simplesmente para o mercado de trabalho. 

Utiliza-se de uma citação do filósofo Gramsci: 

(…) fora do trabalho, todo homem desenvolve alguma atividade intelectual; ele é, em outras palavras, um “filósofo”, um artista, um homem com sensibilidade; ele partilha uma concepção do mundo, tem uma linha consciente de conduta moral e, portanto, contribui para manter ou mudar a concepção do mundo.

Podemos pensar em buscar no conceito de “trabalho”, utilizado neste trecho, sentidos próximos à “escola”, tentar enxergar que, fora do ambiente escolar, os jovens produzem cultura e conhecimento, ora pegando onda no que já é falado, ora produzindo uma nova forma de leitura do mundo.

 O funk é uma realidade. Uma realidade concreta em todas as periferias. Suas letras abordam um conteúdo rico (e incômodo aos ouvidos de muitos) que servem como ferramenta para que se compreenda um pouco mais da realidade periférica: afeto, drogas, sexo, mazelas sociais, racismo, estética, machismo, LGBTfobia, consumo, trabalho, etc. À escola, situada neste ambiente, cabe o papel de conhecer, reconhecer e respeitar a produção cultural desses jovens.

Respeitar não significa uma postura passiva diante de tudo o que é dito nas letras ou praticado nos bailes, mas uma postura crítica. Essa postura crítica não pode vir de cima pra baixo como numa concepção bancária de educação, mas deve ser horizontal, problematizando as questões junto com os jovens. 

Sendo o funk uma realidade da periferia, a escola, em seu dever de ser um instrumento de produção e disseminação do conhecimento, deve se enxergar como um espaço aberto, plural, comunitário, deve se colocar dentro da periferia como parte dela, e não como uma ilha isolada. Olhar ao seu redor e não somente para dentro de si mesma. A escola a serviço da comunidade e não o contrário. 

Muitas vezes, para essa comunidade, o baile funk é o único espaço de convivência; arrisco dizer que a escola, sem perder de vista o seu horizonte, pode aprender muito com esses bailes. Compreendemos os motivos que causam, muitas vezes, a repulsa que os professores e a sociedade em geral alimentam quanto ao funk. Porém, uma educação libertadora exige uma visão compreensiva e mais aprofundada. 

Sabemos que essa postura de ignorar o funk enquanto realidade não tem gerado bons frutos. Faz-se importante entender que antes da existência da escola e ainda que a estrutura física da escola caia, o conhecimento continuará sendo produzido e disseminado por ali. 

Os jovens dançarinos, MCs, produtores, frequentadores do funk, possuem um impulso criativo que deve ser enxergado e aproveitado para esta construção. Georges Gusdorf , citado pelo sociólogo Pierre Bourdieu, em artigo sobre o sistema educacional francês, nos diz: 

(…) a maioria dos docentes não são mestres. Dão suas aulas, realizam seus cursos, como bons funcionários. Redistribuem os conhecimentos acumulados, mas nunca lhes ocorreu que para além das verdades que defendem afirma-se a existência de uma verdade mais alta.

Somente se entendendo como mais do que um funcionário, é que o professor pode agir como mestre, e assim rever seus conceitos prévios, respeitar a bagagem e trajetória dos jovens estudantes funkeiros, e entender esse convívio como forma de construir e praticar a cidadania, verdadeiramente. 


Igor Gomes Xavier

Igor Gomes (Igor Chico) é educador de História; poeta, autor do livro “Dom Quixote Pixaim”, participante de saraus e slams de poesia. É um dos organizadores do Slam do Pico. Já participou de três antologias literárias: “Podepa Que É Nois Que Tá” organizada pelo Sarau dos Mesquiteiros; “Antologia Jovem Afro” organizada pela Quilombhoje e da Coletânea Ancestralidades – Escritores Negras. Além de ficar entre os finalistas do concurso “1° Festival de Poesia da Cidade de São Paulo.” Em 2018 participou do programa Manos e Minas da TV Cultura como poeta convidado.