Na semana passada, a hashtag #PrayForAmazonas (Reze pelo Amazonas, em tradução literal) chegou ao topo no Twitter. O país enfrenta dias difíceis: de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram registrados no Brasil cerca de 73 mil focos de incêndio em áreas particulares e protegidas, de janeiro à primeira quinzena de agosto. O bioma da Amazônia é o mais afetado. Há semanas, capitais como Rio Branco e Porto Velho, no norte do país, sofrem com a má qualidade do ar: há registros de hospitais lotados por conta de problemas respiratórios. Em 19 de agosto, o céu de São Paulo ficou escuro no meio da tarde, resultado do encontro de uma massa de ar frio com material particulado liberado pelas queimadas. 

Todos são situações sensíveis à nossa realidade e funcionam como exemplo dos desafios que o futuro nos reserva. A ele se somam situações como o aumento da industrialização a níveis exponenciais, o consumo desenfreado de nações ricas, os altos índices de desigualdade, a extrema pobreza e fome etc. 

Quando se trata do cuidado ao planeta, os principais objetivos de agendas mundiais é eliminar a degradação ambiental, cuidar dos recursos naturais e reverter o cenário atual das mudanças climáticas. Uma das coalizões mais fortalecidas nesse contexto é a coordenada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que reuniu lideranças mundiais em torno do estabelecimento de uma agenda comum para o desenvolvimento na terra. São os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que devem ser alcançados até 2030.

Diante desse contexto, o papel da escola é criar e fortalecer essa consciência em crianças, adolescentes e adultos. Um dos caminhos para esse fim é justamente a educação ambiental.

Educação ambiental é o mesmo que aula de ecologia?

A resposta é não. Explico-me: o que se defende é um conceito mais amplo em que a educação ambiental se refere à discussão, debate e ensino sobre os desafios da socioambientais da realidade. Não se trata de promover a transmissão de conhecimento descolada dos desafios de cada comunidade.

O objetivo é, sim, abordar os problemas da sociedade de forma clara e propositiva. Com isso, o educando passa a perceber de forma mais clara, em sua realidade, os problemas enfrentados pelo planeta. Trata-se do desenvolvimento da consciência ambiental e do protagonismo na execução de mudanças que ajudem a solucionar essas questões.

Por que a educação ambiental deve fazer parte da escola?

Os pesquisadores Fragoso e Nascimento defendem que a educação ambiental:

 (…) permite ao aluno se posicionar acerca de questões polêmicas do nosso tempo, como os desmatamentos, o acúmulo de poluentes, o aquecimento global, as alterações climáticas, a produção de organismos geneticamente modificados e suas implicações à saúde e ao ambiente entre outros temas.

Ou seja, a educação ambiental ensina sobre ter atitude diante da necessidade de mudar hábitos e transformar realidades. Fornece instrumentos para que alunos questionem os próprios hábitos, bem como desenvolvam projetos em sua comunidade.

Para o professor, é uma estratégia importante para ensinar sobre responsabilidade e protagonismo, aspectos que serão importantes para o enfrentamento dos desafios do futuro. No entanto, para que seja efetiva, o que se defende é que a educação ambiental seja um tema transversal na escola. Esse aspecto passou a ser priorizado em 1997, com o lançamento dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). 

O desafio é garantir que a discussão faça parte da escola de forma mais ampla, com o desenvolvimento de estratégias que contribuam para que esteja presente até mesmo no ensino do português e da matemática.

Um tema essencial na primeira infância

Ainda que possa representar um desafio ainda maior para o professor, a educação ambiental precisa estar fortemente presente na realidade da primeira infância. O motivo é claro: é exatamente na educação infantil que a criança se desenvolve moral intelectualmente. Nessa fase, o educando passa a construir uma consciência sobre seu papel na sociedade e sobre a importância de um agir mais responsável. Para Alves e Saheb: 

A educação ambiental introduzida na educação infantil, de acordo com seus princípios, pode gerar mudanças de pensamentos e transformação de valores que serão de grande importância para promover uma nova postura diante do meio em que vivemos.

Como incluir educação ambiental na escola?

Por se tratar de um tema transversal, é necessário que a comunidade escolar inclua a educação ambiental nas discussões do planejamento anual. Hoje existe um distanciamento entre o que está previsto para o tema e as práticas em sala de aula. A maioria dos projetos escolares trata a Educação Ambiental como uma reprodução de atividades sobre reciclagem de lixo, por exemplo. O objetivo deve fazer com que o tema esteja presente não apenas no ensino da geografia e biologia, mas que faça parte da realidade da instituição de ensino.

Será a oportunidade de trabalhar não só educação ambiental, como também componentes curriculares (como matemática e português) e competências (como comunicação e colaboração).

Para terminar, a história de Greta

Não é possível falar de educação ambiental sem mencionar a história da ativista sueca Greta Thunberg. Nascida em 2003 – sim, não erramos na data – a adolescente de 16 anos decidiu, quando tinha 15, a não comparecer às aulas em todas as sextas-feiras. O motivo? Ela reservava o dia para se sentar em frente ao Parlamento sueco, localizado em Estocolmo, para cobrar medidas efetivas da classe política contra o aquecimento global.

Em março de 2019, Greta liderou um protesto que mobilizou mais de 1 milhão de jovens, de 125 países, contra a falta de atitude em relação às mudanças climáticas. Seu poder de mobilização se justifica, também, por seu discurso potente e emocionante (para conhecê-la melhor, clique aqui). A adolescente foi nomeada, em 2019, para o Prêmio Nobel da Paz. 

É em busca dessa postura ativa e crítica que professores e comunidade escolar precisam incluir a educação ambiental como parte do currículo dos alunos. Uma estratégia que pode funcionar nesse sentido é a adoção de práticas, no chão da escola, que estejam alinhadas aos desafios da comunidade. Se uma instituição de ensino está inserida em um contexto em que há desafios relacionados à geração de lixo, o tema pode estar presente em projetos de coleta seletiva ou desafios para reduzir resíduos na escola. Fazer com que os alunos mapeiem e reconheçam os desafios de sua comunidade local, elencando situações e estratégias de solução possíveis, é outra maneira de trazer o assunto para a sala de aula.

Para incluir os outros componentes curriculares, os alunos podem assumir o protagonismo na execução de todas as etapas do projeto, desde a definição de grupos, arrecadação de recursos e desenvolvimento de campanhas de engajamento.


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Marcela Karitas

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha como produtora de conteúdo na área de educação.