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Nos identificamos através de grupos políticos, étnicos, afinidades sexuais, gêneros e tantas outras construções culturais. Assumindo o que Stuart Hall nos traz sobre sujeito pós-moderno, identidades transitórias e temporárias são usadas na construção híbrida de cada indivíduo que “está fragmentado, composto por várias identidades, formadas e transformadas continuamente em relação às formas pelas quais somos representados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (Hall, 2006). 

Como exemplo, podemos pensar em uma pessoa que se identifica como mulher, bissexual, e que também é mãe; são três de muitas identidades que compõem esse corpo e, dependendo do momento, uma pode sobressair à outra. Outro exemplo são os integrantes do grupo Oz Guarani: rappers, adolescentes da etnia Guarani que fazem parte da aldeia Tekoa Pyau; são identidades e culturas que se mesclam na construção de cada indivíduo do grupo.

Folclore e identidade: interseccionalizar para respeitar

Por ter um caráter de identidade fixa e não fluir com as constantes mudanças estruturais da cultura de uma determinada região ou grupo, o conceito de folclore como um discurso de valorização de cultura popular local pode trazer uma ideia oposta ao que se propõe e, muitas vezes, nos remeter a uma tradição ou identidade estagnada, sendo alvo de preconceitos.

Habitamos a colonizada e escravocrata América Latina, região com grande número de etnias e raças que se interpelam. Não interseccionalizar identidades é apagá-las, sem falar sobre a ridicularização das culturas e identidades políticas quando estereotipadas e reduzidas, por exemplo, a fantasias “tradicionais” de carnaval como: “o índio” ou a “nêga maluca”.

Algo que merece nossa reflexão é o interesse político e estatal pelo folclore que aparece no Brasil durante a época do Estado Novo, período de governo nacionalista e conservador que buscava montar uma unidade nacional sem reconhecer recortes culturais de raça, gênero, etnia, sexualidade e inúmeras especificidades individuais que estão se expandindo nas sociedades modernas após o século XX. 

Na atualidade, pensar em uma unidade nacionalista ou nas caricaturas de culturas existentes num determinado lugar pode ser considerado marketing usado para exploração turística, inclusive porque, muitas vezes, essas representações sequer são feitas por seus protagonistas, fugindo à realidade cultural do espaço em questão.

A globalização instaurada no universo neoliberal é outro fator a ser considerado quando pensamos na homogeneização cultural, afinal ela possivelmente é uma das responsáveis pela destruição de culturas e redução das identidades.

É importante pensar que um indivíduo tem múltiplas identidades dentro de si e não precisamos reduzi-las ao seu lugar de fala. Levar para sala de aula mais autoras mulheres, negras, dissidentes sexuais, de etnias indígenas e/ou latino-americanas para falar de assuntos não só relacionados a gênero ou raça, pode ajudar na construção de espaços sociais, como escolas e universidades, abertas às pluralidades culturais longe de preconceitos que afastam quem é lido como “o outro”.

Propor atividades que busquem quais são as múltiplas identidades e culturas coexistentes na nossa sociedade também é uma forma de desconstruir a identidade padrão baseada no homem branco, heterossexual, ocidental e capitalista. Esse sujeito hegemônico é o que predomina nos discursos que temos contato durante nossa trajetória escolar e acadêmica, principalmente porque vem dele tudo o que diz respeito a nossa história, mesmo não sendo próximo à realidade da maioria das pessoas da América-Latina. Sabemos sobre nós mesmxs* através do colonizador, que romantiza e ameniza a violência do passado.

Textos como Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, ou Borderland/La Frontera: The New Mestiza, de Glória Evangelina Anzaldúa, contrapõem essa situação, pois tratam-se de obras com uma proposta decolonial, escritas a partir de vozes multi-identitárias que rompem essa norma.

Reconhecer identidades étnicas, de gênero, sexuais e outras no âmbito escolar é um desafio, levando-se em conta que a concepção de currículos supostamente nacionais apenas correspondem a uma visão neoliberal de homogeneização de saberes.

Conteúdos audiovisuais que ajudam a construir identidades coletivas positivas, narrativas com novas possibilidades e que respeitam a pluralidade identitária, condição necessária ao sistema democrático, podem ser usados em práticas pedagógico-curriculares. 

O contato com expressões poéticas e narrativas que nos aproximam da nossa realidade faz com que tenhamos uma melhor compreensão das culturas que nos rodeiam, facilitando a construção e convivência das múltiplas e possíveis identidades individuais. 

Considere levar vídeos de youtubers aos estudantes como forma de chamar atenção, provocar o debate e trabalhar esse tema em sala de aula. A influenciadora digital Nátaly Neri é um bom exemplo a ser citado quando falamos de conteúdo voltado aos jovens com esse direcionamento.

* palavra neutra de gênero. A neutralidade de gênero na linguagem é um movimento que busca evitar o binarismo imposto pelos gêneros tradicionalmente aceitos pela sociedade (masculino e feminino). 


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Marita

Estudante de Letras, Artes e Mediação Cultural na UNILA - Universidade Federal da Integração Latino-Americana.