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Existem atributos capazes de definir o que é um bom professor? É claro que não há uma resposta correta para a pergunta. Mas algumas características costumam ser destacadas, como criatividade, amplo conhecimento do componente curricular e desejo de aprender continuamente. 

Também é importante que o educador seja paciente, aberto ao diálogo e empático, ainda mais em um contexto educacional marcado pelo desafio de desenvolver nos alunos seus potenciais.  Talvez por essas características, venha-se fazendo há tanto tempo a associação entre mulheres e educação.

A mulher-professora: um breve histórico

No Brasil do século 19, o movimento fabril e capitalista torna necessários o ensino e a profissionalização, estabelecendo o ensino regular. É nesse contexto que a escola ganha papéis importantes. Passa a ser dever da instituição a formação dos alunos e sua preparação para o futuro. 

Naquela época, em que as responsabilidades de homens e mulheres eram bem demarcadas, o movimento natural foi estabelecer prioritariamente as mulheres como professoras em escolas primárias. No estado de São Paulo, por exemplo, na lei nº 81, sancionada em 1887, havia preferência explícita pelo público feminino na condução de turmas mistas. O motivo relaciona-se à dicotomia entre o que significava ser homem e ser mulher para a sociedade.

Ou seja, na escola do passado, ser professora, principalmente no ensino primário e fundamental, significava estender amor, carinho e afeto para os alunos. E considerava-se que esses eram atributos exclusivos da mulher, contribuindo para o movimento de feminização do magistério. Como reflete Rita de Cassia Costa Moreira:

Nessa perspectiva, a mulher‐professora é vista como sinônimo de cuidado, de ternura, de docilidade e, não necessariamente, de competência. Sua ação profissional é vocação, é missão, o que favorece um imaginário que as distancia de reivindicações político‐salariais. Já o homem professor é visto como profissional revestido de autoridade, de poder, de competência (já que próximo da esfera pública – legitimada e distante da esfera privada – desvalorizada).

Associava-se às professoras o papel da mãe, isto é, de alguém com a capacidade de estimular as habilidades de indivíduos em formação. Contudo, esse tipo de cuidado não é exclusivo da progenitora, não se vincula a conjecturas biológicas e sequer está restrita ao papel feminino. Aqui nos apegamos às reflexões de Rodrigo Saballa de Carvalho sobre o assunto: 

A diferença fundamental é que a maternagem exercida (…) deve estar associada a um projeto educativo que lhe possibilite refletir sobre as práticas por ele exercidas, tendo em vista a produção de sua própria docência – sem se rotular com etiquetas de feminilidade, afetuosidade, calma, paciência, subserviência, entre outros tantos vocábulos usados de modo excessivo nos discursos escolares.

Elas ainda são a maioria

Embora não faça sentido associar o papel do professor à figura da mãe, ainda é cedo para afirmar que está acontecendo uma dissociação entre a maternagem e o papel da mulher na sociedade. O estudo Perfil do Professor da Educação Básica, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostra que elas ainda são a maioria entre os professores, principalmente na educação infantil – proporção que vai diminuindo à medida que os estágios do ensino avançam.

Gênero Educação infantil Ensino fundamental – anos iniciais Ensino fundamental – anos finais Ensino médio
Mulher

96,6%

88,9% 68,9%

59,6%

Homem

3,4%

11,1% 31,1%

40,4%

Fonte: Inep – Ministério da Educação. Perfil do professor da Educação Básica (2017).

O desenvolvimento de habilidades socioemocionais está associado a ações pedagógicas, não a gêneros

Quando falamos de habilidades socioemocionais, falamos de competências como empatia, cooperação, autoconhecimento. E essa formação, que envolve diálogo, cuidado e atenção, “pode ser realizada independentemente de o profissional ser homem ou mulher, ter ou não filhos. O que é necessário é que essa pessoa esteja disposta a atender às demandas referentes à faixa etária (…) tendo conhecimento teórico e empatia com o trabalho que realiza” (CARVALHO, 2015).

Portanto, os estudantes podem encontrar na escola a oportunidade para demonstrar fragilidade e alteridade, aprender sobre empatia, dialogar abertamente e desenvolver uma atitude mais responsável na sociedade. Ou seja, uma escola autoritária e voltada apenas à transmissão de informação já não faz sentido em um contexto em que o ensino tecnicista e compartimentado vai perdendo espaço. É por isso que a abordagem mais afetiva, marcada pelo cuidado, pode ser essencial para ensinar o estudante sobre resiliência, liderança, respeito, colaboração e comunicação aberta. 

Confira a seguir alguns exemplos de como desenvolver habilidades socioemocionais, contribuindo positivamente para a formação de alunos:

  • Estimule a liberdade em sala de aula: permita que os alunos explorem o ambiente, criando uma sala de aula que permita, e incentive, essa exploração diária. Você pode começar simplesmente permitindo que os alunos se sentem, a cada aula, em locais diferentes.
  • Contribua para o autoconhecimento e alteridade do aluno: para que se desenvolva bem, é essencial que um indivíduo consiga compreender quem é, do que gosta e do que não gosta. Uma forma de estimular essa jornada é desenvolver estratégias para que alunos façam uma autoanálise e entendam o que os forma. Aliado a esse movimento, o educador deve contribuir para que o estudante celebre suas diferenças.
  • Crie um ambiente afetuoso em sala de aula: respeitando as características da turma, o professor também pode transformar esse momento de contato e troca em experiências mais significativas. Evite atitudes agressivas, celebre o desenvolvimento do aluno e estabeleça uma relação de parceria. 
  • Amplie as relações interpessoais: para que os alunos possam desenvolver atitudes de participação e cooperação. Permita que haja espaço para encontrar diferentes pares em grupos, realizando tarefas compartilhadas. 
  • Estimule o respeito mútuo: utilizando estratégias para trabalhar conflitos, conciliar diferentes pontos de vista sobre uma mesma situação e ajudar os alunos a expressar sentimentos e posicionamentos próprios diante de alguma situação, sem incutir juízo de valor, com suporte do educador. 

Marcela Karitas

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha como produtora de conteúdo na área de educação.