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Ser professor é uma tarefa que envolve riscos. Ainda que não sejam perigos aparentes, como os que enfrenta um policial ou um bombeiro, eles existem e podem limitar o desempenho na docência. Um deles é a síndrome do burnout, ou síndrome do esgotamento profissional. O conceito é relativamente novo, e foi cunhado pelo psicanalista de origem alemã Herbert Freudenberger, em 1974.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de um fenômeno ocupacional que pode influenciar o estado de saúde do indivíduo. No Brasil, faz parte da lista de transtornos mentais e do comportamento relacionados ao trabalho, do Ministério da Saúde. Entre os principais sintomas estão:

  • Exaustão ou esgotamento de energia;
  • Aumento do distanciamento mental do próprio trabalho;
  • Redução da eficácia profissional.

O burnout e os professores

Apesar de poder ser um sofrimento vivido por profissionais de diversas áreas, a síndrome do burnout acomete de forma mais acentuada profissionais da área da saúde, da segurança pública e da educação. Para Alves (2017):

São profissionais que enfrentam eventos estressores constantemente no seu ambiente de trabalho, além de um intenso e contínuo envolvimento emocional. Geralmente são trabalhadores submetidos a longas jornadas de trabalho, com excesso de responsabilidades, número insuficiente de pessoal, falta de reconhecimento profissional.

Por causa dos diversos fatores de risco, a rotina do educador tem sido tema de estudos acadêmicos, que comprovam como a síndrome tem avançado de forma alarmante no ensino. O estudo Síndrome de burnout e relações sociais no trabalho: um estudo com professores da educação básica, da Universidade de Brasília (UnB), foi feito com oito mil professores da educação básica da rede pública de municípios do centro-oeste brasileiro. Sua análise aponta que 15,7% dos entrevistados tinham a síndrome do esgotamento profissional.

Entre os professores entrevistados:

  • 15,7% possuíam a síndrome do esgotamento profissional

  • 29,8% apresentavam exaustão emocional

  • 31,2% sentiam baixa realização profissional

  • 14% praticavam a despersonalização

Os diferentes contextos escolares — considerando-se as esferas pública e privada — também exercem impactos diversos, de forma que professores de escolas públicas e de escolas particulares registram gatilhos diferentes para o Burnout. De acordo com estudo realizado pelos pesquisadores Alberto Ferreira, Douglas Santos e Rafael Rigolon, da Universidade de Viçosa (MG):

(…) o desinteresse dos alunos da rede pública, somado aos baixos salários, acarreta um sentimento de insatisfação dos docentes, que não veem seus esforços convertidos em aprendizado. Entretanto, na rede privada os docentes tendem a questionar o excesso de cobranças, mesmo em condições nas quais sua produtividade é adequada.

A mesma pesquisa revela que entre os principais desencadeadores de estresse entre professores está a questão salarial. Os pesquisadores refletem que “principalmente os docentes do ensino público tendem a se dedicar a uma dupla ou tripla jornada de trabalho para obter uma melhor remuneração, apresentando pouco tempo para descansar e se dedicar à família”. Esse é um cenário que denuncia a precarização da profissão professor, não somente em termos de salário — e aqui lembramos que o salário mínimo pago aos professores brasileiros é considerado um dos piores do mundo, de acordo com dados levantados pela OCDE —, mas também em aspectos como infraestrutura do local de trabalho, acompanhamento pedagógico e emocional, reconhecimento e cuidado com a formação continuada.

Ações de apoio aos professores: como ser a fênix e superar o burnout

É essencial que o educador realize uma autoavaliação para definir seu nível de satisfação em relação ao próprio ofício. Diante de situações extremamente estressantes e de outros sinais de alerta característicos dessa síndrome, o professor deve procurar auxílio médico e psicológico. Apenas um profissional de saúde capacitado será capaz de realizar um diagnóstico concreto e fiel à realidade.

No entanto, enfrentar o burnout é tarefa não só do professor, mas de toda a comunidade escolar. É necessário analisar de perto a realidade de cada instituição de ensino para entender de forma estruturada as raízes da síndrome e desenvolver estratégias para enfrentá-la.

Abaixo listamos algumas ações que as escolas, em parceria com os professores e a comunidade escolar, podem realizar para minimizar os impactos do burnout, garantindo qualidade de vida aos docentes (SAWITZI, LORENZETTI, LOCATELLI & BRUNETTA, 2012) :

Ações direcionadas ao professor

  • Orientação, por meio de palestras, sobre os possíveis fatores de estresse relacionados ao trabalho e a possibilidade de desenvolvimento deste tipo de estresse ocupacional de caráter crônico;
  • Formação de grupos de discussão para trabalhar as crenças que o profissional tem sobre sua prática, auxiliando-o a desenvolver concepções mais realistas e adequadas da profissão;
  • Instrumentalizar o corpo docente para a qualificação das relações interpessoais, tendo em vista que esta não é temática exaustivamente desenvolvida na formação deste profissional. O professor, cada vez mais especializado, conhece muito sobre o que e como ensinar, mas muito pouco sobre formas de vivenciar sua profissão e os pontos de desgaste profissional.

Ações direcionadas à equipe diretiva e pedagógica

  • Propiciar um espaço institucional de discussão e reflexão junto aos professores sobre o papel docente na atualidade, bem como os reflexos do novo paradigma empresarial no contexto educacional;
  • Promover a participação dos professores nas decisões institucionais;
  • Estimular e valorizar a autonomia docente, permitindo aos professores manifestar sua competência e motivação profissional;
  • Divulgar experiências à comunidade, salientando os aspectos inovadores da escola e da profissão docente, resgatando, desta forma, a imagem do professor perante a sociedade.

Comunidade

  • Realizar campanhas informativas destacando a importância da função docente;
  • Buscar parceria e apoio da comunidade para a efetivação do processo educativo, destacando a educação como uma questão que diz respeito a todos, aos professores, aos alunos, às famílias e às instituições;
  • Reestruturar as reuniões com familiares para que sejam trabalhadas com agenda positiva, e não apenas para apresentar baixos resultados escolares dos alunos.

 


Marcela Karitas

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha como produtora de conteúdo na área de educação.