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Em 25 de julho, cada educador deveria reservar um momento para refletir sobre um cenário ainda alarmante no país. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que há uma faixa da população 50% mais vulnerável ao desemprego: as mulheres negras.

Elas, apesar de terem aumentado seu rendimento em 80% entre 1995 e 2015, ainda ganham muito menos que homens brancos, mulheres brancas e homens negros, nessa ordem.

Já parou para pensar nas lutas diárias de meninas, jovens e mulheres pretas? As discriminações são de ordem social e estética: são marginalizadas pela textura de seu cabelo, têm seu corpo hipersexualizado e têm mais chance de sofrer feminicídio.

Considerando a herança brasileira de uma sociedade escravocrata, patriarcal e classista, pensar no papel da mulher negra é essencial para o que a filósofa Djamila Ribeiro chama de “um novo marco civilizatório”.

A estudiosa Grada Kilomba, em seu trabalho Plantation Memories: episodes of everyday racism (Memórias de Plantação: episódios de racismo cotidiano, em tradução livre), reflete que:

Por não serem nem brancas, nem homens, as mulheres negras ocupam uma posição muito difícil na sociedade supremacista branca. Nós representamos uma espécie de carência dupla, uma dupla alteridade, já que somos a antítese de ambos, branquitude e masculinidade. Nesse esquema, a mulher negra só pode ser o outro, e nunca si mesma. (…)

Por que é importante falar sobre a mulher negra no 25 de julho?

Hoje é Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data foi estabelecida em 1992, na República Dominicana, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas.

A luta remete a um passado e presente de marginalização dessas populações, além do apagamento e branqueamento de manifestações sociais, culturais e religiosas que apenas muito recentemente voltaram a ser resgatadas.

A data de 25 de julho, no Brasil, passou a fazer parte do calendário de comemorações em 2014, com a criação do Dia Nacional de Tereza de Benguela. A homenagem brasileira remete à líder quilombola que viveu no século 18, no Mato Grosso. Após a morte de seu marido, Tereza assumiu o posto de liderança do Quilombo do Quariterê contra a opressão colonial portuguesa e se tornou exemplo de força e resistência.

Qual é o desafio da escola na luta contra o racismo?

Por muito tempo, no entanto, o nome de Tereza esteve “apagado” da historiografia brasileira, assim como o de diversas outras heroínas negras.

O esforço, agora, é mudar essa realidade. E é o que tem acontecido, com a valorização de nomes como os de Tereza de Benguela, Antonieta de Barros, Mãe Menininha, Dandara, Mãe Aninha e Carolina de Jesus.

Para fortalecer esse movimento, é preciso incluir no cotidiano escolar esses nomes, assim como outros aspectos da cultura e da arte afro-brasileira. Além disso, instituições de ensino devem incluir como responsabilidade a valorização das vivências indígenas e de outros povos que compõem a rica e vasta cultura latino-americana. A meta: parar de silenciar narrativas dominadas pela população branca – a europeia e a norte-americana.

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Como começar?

Mas não adianta incluir a temática étnico-racial apenas em datas importantes, como alertam Araújo e Giuliani (2014). O risco dessa abordagem é tratar assuntos importantes “de forma pontual, superficial, descontextualizada e sem continuidade” (ARAÚJO, GIUGLIANI, 2014, p.4).

A terceira competência da BNCC, Repertório Cultural, fala sobre “valorizar as diversas manifestações artísticas e culturais”. Um caminho possível é pensar em estratégias que contribuam para desmitificar a ideia de que não há racismo no Brasil, discutir a exclusão da população negra na sociedade e valorizar as identidades e a cultura afro-brasileira (Costa, 2018).

A boa notícia é que há muitos professores, e alunos, dedicados a alcançar esses objetivos.

5 projetos inspiradores na luta contra o racismo

  • Projeto Benguela (Aracaju, Sergipe): sua proposta é promover leitura, rodas de conversa e atividades divertidas para discutir preconceito racial e autoafirmação. Além das discussões, os alunos se envolvem na produção de um fanzine sobre os assuntos tratados.
  • Afroetnomatemática (Joinville, Santa Catarina): inclui no planejamento curricular o estudo das contribuições africanas à matemática, abordando temas como capoeira, búzios e fractais, tendo como pano de fundo o estudo da probabilidade.
  • Grupo Pessoas cacheadas, crespas e trançadas de Maracanaú (Ceará): iniciativa criada por alunas da rede municipal de ensino que já sofreram algum preconceito em suas vidas. Criado em 2015, o grupo cresceu e atualmente promove espetáculos de dança, exposições fotográficas, rodas de conversa e outras ações voltadas à temática.
  • Projeto Adeola (São Paulo, capital): busca promover a “afrobetização”, por meio da contação de histórias pertencentes à cultura africana. A ideia é conduzida por duas estudantes universitárias, que encarnam princesas africanas e também ensinam as crianças a usarem turbante, dançar capoeira e conhecerem os significados dos trajes e adereços africanos.
  • Grupo de Dança Quilombo dos Anjos (Candiba, Bahia): para valorizar aspectos da cultura quilombola, meninas e mães da cidade criaram o grupo, que ensaia e apresenta danças tradicionais quilombolas e africanas.

Marcela Karitas

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha como produtora de conteúdo na área de educação.