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No ano de 2012, durante uma viagem, deparei-me com uma cena pouco comum. Em um conhecido sítio histórico da cidade em que estava, crianças corriam por todo lado, brincando como se revivessem a antiga história do lugar.

Elas não tinham mais do que sete anos de idade. Sua interação com as instalações era observada de perto pelos professores. Ao final da brincadeira, todos se reuniram em um espaço à parte para conversar, lanchar e organizar a volta para escola. Os pequenos deixaram o local ainda vestidos com suas capas e capacetes de brinquedo.

A experiência antiga resume diversas das potencialidades de incluir o museu na educação infantil. Ao sair do ambiente escolar por algumas horas, por exemplo, os alunos do meu relato tiveram a chance de fazer novas descobertas a partir da experiência e interação com vestígios do passado.

Mas será que vale a pena investir em estratégias como essa? Ou é possível incluir experiências lúdicas e informativas no planejamento escolar sem que seja necessário ir ao museu?

O público infantil nos museus

Antes de responder as perguntas é necessário analisar o conceito de infância. De acordo com diversos pesquisadores, o educador deve enxergar a criança como um pequeno cidadão, ou seja, como um ator relevante na sociedade que busca formar sua identidade. Dois deles são Sarmento e Barra (2002):

Diferentes instâncias e situações contribuem para esse processo de formação identitária (…). Essas interações ocorrem em diversos espaços que propiciam novos aprendizados, sejam eles formal, não formal ou informal, levando as crianças a se posicionarem diante do mundo, absorvendo, construindo e produzindo saberes e práticas culturais no contexto social no qual estão inseridas.

Ou seja, ainda que estejam em formação, as crianças são sujeitos de direito, não apenas cidadãs do futuro. Elas vivem e têm relevância no tempo presente. E é por isso que, desde cedo, os pequenos precisam estar em contato com espaços e experiências diversas. É dessa maneira que elas poderão se conhecer, ter contato com a própria cultura e se conectar com a realidade em que vivem.

Mas para que faça sentido à vida da criança, a educação tem um desafio adiante: proporcionar experiências diversas respeitando as características e limitações da infância. Inclusive em museus.

Na prática, a meta se traduz em dialogar com os modos de ver o mundo infantil. É por isso que a brincadeira, interação, movimento e estímulo à observação e à imaginação funcionam como estratégias essenciais para que essa experiência seja satisfatória.

A arte como espaço transformador na educação infantil

Ao incluir essas organizações em seu planejamento pedagógico, o professor garante que o aluno tenha acesso a um universo de possibilidades variadas. Afinal, o Brasil conta com museus de topo tipo.

Há aqueles destinados a resgatar a cultura de um povo tradicional, bem como os voltados a expor obras de arte renomadas. Também existem os espaços que valorizam o esporte e a ciência, além daqueles destinados a promover experiências interativas.

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Mas, de modo geral, o contato da criança com museus pode contribuir para a ampliação de seu repertório, uma vez que ela terá acesso a obras de arte, informações e experiências de contextos distintos ao seu mundo rotineiro.

Outro papel do museu na educação infantil é ensinar sobre aquilo que é diferente, seja porque faz parte do passado, busca prever o futuro ou mostra uma realidade distante. Com mais informações e referências sobre o mundo em que vive, a criança também aumenta sua capacidade de relacionar eventos e olhar criticamente para o mundo.

Além disso, a visita ao museu também é mais uma forma de estimular a criatividade do público infantil. Por meio do contato com imagens e objetos diferentes da própria realidade, a criança têm acesso a instrumentos para criar novas formas de brincar, interagir e aprender.

Visitando o museu: 4 estratégias para uma boa experiência

Mesmo que sua cidade não conte com uma opção de museu a céu aberto, como o exemplo da abertura deste artigo, é possível criar uma aula tão boa quanto aquela. Para isso, é necessário ter atenção às características dos alunos da educação infantil. Como defende Sarmento (2003):

A criança é um ser brincante, imaginativo, criativo e corporal, por isso no trabalho com crianças pequenas não se pode perder de vista a ludicidade, fantasia do real, reiteração e interatividade – os quatro pilares que sustentam as infâncias.

Confira, a seguir, uma lista de 4 possibilidades que podem ser utilizadas. Lembre-se de sempre aliar a visita a algum tema tratado em sala, para que faça sentido às crianças.

  1. Atividades interativas: mesmo em museus onde não haja esse tipo de atrativo, é possível criar oportunidades de interação das crianças com as obras. O professor pode, por exemplo, pedir que seus alunos imitem o movimento de determinada escultura ou obra de arte.
  2. Contação de histórias: muitos museus do Brasil contam com essa atividade para o público infantil, mas, caso não haja essa possibilidade, basta criar uma sessão de contação de histórias própria. É importante treinar antes o momento da apresentação e se apropriar de todos os recursos para chamar a atenção dos alunos.
  3. Criação de jogos e pequenas competições: de forma organizada, os alunos também podem, durante a visita, participar de brincadeiras e pequenos jogos. Um jogo da memória, por exemplo, pode fazer com o que o aluno note o estilo de um artista.
  4. Exercício do olhar: outra estratégia essencial é instigar, a todo o momento, um olhar atento e crítico às obras e instalações. O educador deve marcar presença, fazendo perguntas instigantes e estimulando os estudantes a utilizarem a imaginação para interpretar a arte.

É importante, ainda, fazer todo o alinhamento com o mediador do museu que receberá a comitiva infantil. Outro cuidado importante é orientar as crianças sobre a importância do respeito aos demais visitantes do museu.


Marcela Karitas

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha como produtora de conteúdo na área de educação.