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Em 20 de novembro comemoramos o Dia da Consciência Negra. Porém, um único dia no calendário seria o suficiente para trabalhar esse tema no âmbito escolar? O racismo e sua sutileza cotidiana formam um conjunto de conceitos que colocam o negro unicamente como descendente de uma raça escravizada. Esse pensamento apaga uma história que vai além dos quatro séculos de escravidão do Brasil.

Muito antes do período escravagista, os povos africanos já possuíam uma cultura grandiosa e diversa. Eram mineiros habilidosos, fato que influenciou diretamente a mineração brasileira, e fundiam ferro em fornos que atingiam a 400 graus Celsius a mais que os fornos europeus. Reinos como o Oyo e Songhai possuíam uma política e organização social altamente estruturadas. Existiam conselhos semelhantes ao Senado Romano e a religião também era uma presença atuante, mesmo tendo peculiaridades em cada tribo. Adoravam as forças da natureza, personificando-as como acontecia em varias culturas europeias.

Esse conjunto de características foi invisibilizado pela escravatura e pelo embranquecimento da cultura brasileira após abolição.

Porém, em janeiro de 2003, com a chegada da Lei 10639/9, que inclui História africana e afro-brasileira no currículo obrigatório das escolas, os professores foram convidados a mergulhar nessa camada do passado que ajudou a desenhar a sociedade atual.

O racismo institucionalizado, que vai da crença em uma falsa igualdade racial até a intolerância religiosa, é o maior entrave para que a lei seja adotada de forma eficaz. Como exemplos, vemos que se estuda mitologia grega e se exclui as divindades africanas das páginas dos livros. A culinária africana é resumida ao que os escravos preparavam com as sobras das casas grandes e o próprio negro é visto apenas como agente passivo e submisso da história.

É importante apontarmos que o ensino da história e da cultura afro-brasileira conversam com a Competência 3 da Base Nacional Comum Curricular, a de Repertório Cultural, que fala sobre:

Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.

E como trazer para a sala de aula a história e a cultura da população negra para além do mês de novembro?

Um bom começo para a mudança desse triste panorama é a integração do conteúdo africano no currículo de forma multidisciplinar. Que tal um estudo geográfico mais profundo das localidades brasileiras fundadas majoritariamente por negros? Nossa gramática foi nutrida por dialetos africanos como o Yoruba e Quimbundo. Por que não entender melhor as raízes de expressões e até mesmo regras gramaticais? Analisemos a cor real dos poetas e escritores brasileiros e os motivos para a presença negra na literatura ser tão resumida. Se o assunto for política, por que não se aprofundar nos métodos estatais das tribos africanas? Se é filosofia, por que não entender como esses povos viam o tempo, a morte, a ética e a fé?

Percebemos então que se faz necessária um reflexão pedagógica e social para que a educação contemple a historia africana como DNA da nossa sociedade. Neste processo, a educação pode voltar os olhos para um viés onde o negro é protagonista da sua história e que a mesma é plural e profunda. Apenas através de um mergulho no que realmente significa consciência negra, podemos um dia alcançar a sonhada equidade racial.

Um ótimo material de apoio encontra-se no Projeto A Cor da Cultura, que traz materiais diversos sobre a valorização do segmento negro.


Jordana Sampaio

Artesã e estudiosa da cultura Afro-brasileira.