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Atualmente, um conjunto significativo e crescente de pesquisas aponta resultados importantes do trabalho intencional para o desenvolvimento socioemocional de alunos da educação básica.

Uma das referências neste sentido é o economista norte-americano James Heckman, laureado com o Prêmio Nobel em 2000. Há alguns anos, o professor e pesquisador tem defendido a importância de avaliarmos o que ele chamou de “traços de personalidade”. No artigo “Hard evidence on soft skills, os autores apontam que a literatura sobre o tema traz também termos como soft skills, caráter, habilidades não-cognitivas e habilidades socioemocionais. Apesar de seus significados não serem exatamente os mesmos, muitas vezes são utilizados quase como sinônimos.

Segundo os autores, estudos mostram que traços de personalidades estáveis existem e podem prever muitos comportamentos, mas as pessoas são adaptáveis, o que significa que podem mudar ao longo da vida e, mais importante: as habilidades socioemocionais podem ser aprendidas.

A importância de se avaliar essa dimensão está na constatação de que o sucesso de um indivíduo na vida depende de elementos além daqueles já medidos pelas provas e testes atuais, normalmente baseados apenas na dimensão cognitiva. Inclusive, essas habilidades (ou traços de personalidade) podem explicar boa parte da variação nos resultados destes testes (um dos que ele cita como exemplo é o teste de QI), apesar de só medirem intencionalmente aspectos cognitivos.

Ainda que a maior parte das evidências desse campo não sejam causais, mas correlacionais, ou seja, não provam que o desenvolvimento de habilidades socioemocionais resultam em maior nível educacional, mostram que a correlação entre as duas aprendizagens existe. É o caso de duas das pesquisas apresentadas no artigo.

Uma pesquisa longitudinal, de 2010, que estudou o programa Promoting Alternative Thinking Strategies (PATHS) mostrou que ele reduz casos de agressões, melhora o comportamento pró-social dos alunos com seus pares e professores e melhora o engajamento acadêmico. Em seu currículo estão presentes o trabalho com autorregulação, consciência emocional e habilidades para resolução de problemas. Já um estudo realizado pelo próprio Heckman e uma equipe de pesquisadores, em 2011, encontrou importantes efeitos da aprendizagem de habilidades cognitivas e socioemocionais desde cedo nas escolhas escolares, nos resultados do mercado de trabalho, na saúde na vida adulta e nos resultados sociais.

Um dos estudos mais citados atualmente neste campo é uma meta-análise realizada por uma equipe de pesquisadores coordenada pelo professor Joseph A. Durlak, da Loyola University Chicago, realizada com estudos envolvendo 213 escolas e 270.034 estudantes (da educação infantil ao ensino médio) que passaram por programas de aprendizagem socioemocional — a maioria nos Estados Unidos. A pesquisa concluiu que alunos que participam destes programas demonstraram melhorar significativamente suas habilidades sociais e emocionais, atitudes e comportamentos, tendo reflexos em seu desempenho acadêmico: alcançaram resultados, em média, 11 pontos percentuais superiores aos alunos que não participaram deste tipo de programa.

Os maiores resultados da meta-análise mostram que:

– Os maiores efeitos foram na própria aprendizagem socioemocional dos estudantes.

– Os programas com bons resultados foram desenvolvidos pela própria equipe de professores e funcionários da escola, sem precisar de equipe externa específica para isso, sendo as atividades de aprendizagem socioemocional incorporados em suas práticas pedagógicas.

– Os programas se mostraram efetivos em todos os ciclos da educação básica.

– O ganho de 11 pontos percentuais em desempenho acadêmico (recorte em leitura e matemática) é notável e parece reforçar a ideia de alguns estudos de que programas que trabalham o desenvolvimento socioemocional melhoram a conexão dos alunos com a escola, o comportamento em sala de aula e o desempenho acadêmico.

No Brasil, pesquisadores de áreas como economia e psicologia também já começam a apresentar resultados do trabalho com desenvolvimento socioemocional em escolas brasileiras.

A partir da referência dos cinco grandes domínios de personalidade, conhecidos como Big Five, os estudos de Daniel Santos e Ricardo Primi procuram mostrar como a escola influencia o desenvolvimento de atributos socioemocionais associados ao sucesso. Segundo os autores, “as pesquisas revelam que o conjunto de características socioemocionais contribui aproximadamente tanto quanto as cognitivas na determinação do êxito escolar, tal como o medido por notas, probabilidade de abandono e escolaridade final atingida. Também no mercado de trabalho as características socioemocionais são recompensadas na forma de maiores salários e menor período de desemprego”.

Outros estudos internacionais demonstram também que alunos que passaram por experiências estruturadas de desenvolvimento socioemocional em sala de aula, além de melhoria acadêmica, apresentam atitudes e comportamentos mais positivos, maior motivação para aprender e melhorias nas relações com colegas.

Resultados a curto, médio e longo prazo

Assim, do ponto de vista acadêmico, o que os estudos indicam é o que muitas professoras e professores já percebem na prática de sala de aula: crianças e adolescentes que aprendem a gerir melhor suas emoções, trabalhar de maneira colaborativa com seus pares, demonstram perseverança para atingir seus objetivos e estão abertos a novos conhecimentos, aprendem mais e melhor.

Quanto aos resultados relacionados ao próprio desenvolvimento socioemocional, o que se busca é que aprendam a valorizar a diversidade, desenvolver empatia e a relacionar-se melhor com as próprias emoções. E, com isso, que os estudantes tenham mais subsídios para lidar com conflitos, prevenir situações relacionadas ao bullying e haja uma diminuição de questões relacionadas à saúde mental, como depressão, ansiedade, suicídio, distúrbios alimentares e stress. Estes são problemas cada vez mais presentes na realidade de crianças e adolescentes contemporâneos, com os quais as escolas têm sido desafiadas a lidar cotidianamente.

Além disso, espera-se formar jovens mais preparados para o mundo do trabalho e para a vida adulta como um todo. Isso porque as habilidades socioemocionais que começam a ser desenvolvidas no período escolar podem apoiar os indivíduos nas relações que irão estabelecer com as outras pessoas ao longo de toda a vida, a regular suas emoções e também tomar decisões de maneira mais responsável, tais como aquelas relacionadas à vida acadêmica e carreira. Além disso, poderão ter ferramentas que respondem a demandas de um profissional do século XXI e que o auxiliarão em sua atuação profissional, independentemente de suas escolhas.


Carol Miranda

Cientista Social e Produtora de conteúdo na área da Educação