Desenvolvimento de competências, habilidades do século 21, competências cognitivas e socioemocionais, habilidades para a vida… Não há dúvidas de que estes são termos que estão no centro das discussões da educação contemporânea.

A própria BNCC, ao apresentar seus fundamentos pedagógicos, indica:

“… as decisões pedagógicas devem estar orientadas para o desenvolvimento de competências. Por meio da indicação clara do que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) e, sobretudo, do que devem “saber fazer” (considerando a mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho)…”

O desenvolvimento de competências e habilidades não é algo novo nem na teoria, nem na prática pedagógica, mas ainda são encontradas algumas resistências e preocupações. Há quem considere que, ao propor uma educação focada no desenvolvimento de habilidades (cognitivas e socioemocionais), deixaremos de lado, necessariamente, o ensino e a aprendizagem de conteúdos. Mas colocar as habilidades de um lado versus os conteúdos tradicionalmente ensinados na escola de outro é uma falsa dicotomia.

O convite feito, na verdade, não é para que professoras e professores deixem de levar para a sala de aula os conhecimentos específicos de suas áreas de conhecimento, mas que os levem aliados ao desenvolvimento de diferentes habilidades. Reside aí uma mudança de paradigma importante.

Mudança de paradigma

No final do século 19, artistas franceses foram convidados para imaginar como seria o mundo no ano 2000. Esse exercício de imaginação tornou-se uma exposição e uma das imagens expostas, intitulada At School (Na Escola), de autoria de Jean-Marc Côté, mostra como o artista imaginava a educação do futuro.

Nela, alunos sentados em uma sala de aula recebem o conhecimento por meio de uma máquina, na qual o professor insere os livros, passando o conhecimento através de fios, diretamente para a mente dos jovens. Na cena, não há interação entre professores e alunos e também entre esses e seus pares.

At School (Na escola) | Jean-Marc Côté

Apesar de hoje a imagem causar estranhamento e até algum humor, a ideia da sala de aula como um espaço de transferência de conhecimento para os alunos não parece tão distante assim de nós, não é mesmo?

Já na segunda metade do século 20, Paulo Freire chamava a atenção para a necessidade de passarmos de uma educação considerada por ele como “bancária” para uma educação libertadora. Na educação bancária, o educador é o detentor do conhecimento, enquanto os alunos são como páginas em branco ou vasos vazios, nos quais serão depositados o conhecimento — nesta visão, não há possibilidade de questionamentos ou problematizações.

A mudança de paradigma reside, portanto, em primeiro lugar, em enxergar a criança, o adolescente e o jovem integralmente, como seres humanos dotados de intelecto, corpo, valores, emoções, experiências e conhecimentos prévios, e colocá-los no centro do processo de ensino-aprendizagem. Ao dizer isso, não estamos propondo uma inversão de papéis, mas o reforço do olhar apreciativo e interessado do educador para o aluno.

É possível que você, como eu, já tenha ouvido de um professor ou professora na época de escola, diante de uma turma inquieta, algo como: “eu estou aqui dando a minha aula, passando o conteúdo; se vocês não querem aprender, não é problema meu”. Um olhar apreciativo e interessado de professoras e professores enxerga o estudante como alguém dotado de potencial e se preocupa não só com a lista de conteúdos que é passada, mas, essencialmente, com a aprendizagem e o desenvolvimento de cada aluno.

É aqui que retomamos a falsa dicotomia entre conteúdo versus habilidades. A própria estrutura da BNCC traz uma lista extensa de objetos de conhecimento (compostos por diversos conteúdos possíveis) que devem ser garantidos na aprendizagem dos estudantes a cada ano da educação básica. A partir deles temos um repertório de habilidades.

As habilidades, portanto, são desenvolvidas a partir do ensino dos conteúdos dos diferentes componentes curriculares, e não descoladas deles. A própria construção das habilidades evidencia esse processo, como vemos neste exemplo:

O interessante é que, ao trabalhar uma habilidade a partir de um conhecimento de História, o estudante está desenvolvendo aspectos cognitivos que podem ser utilizados e aprofundados também ao aprender conteúdos de Física ou Língua Portuguesa, por exemplo. Classificaridentificarinterpretar e argumentar são apenas alguns exemplos de verbos que explicitam processos cognitivos trabalhados pelas diferentes áreas do conhecimento.

Aprendizagem pela experiência

Na prática, como promover o desenvolvimento de diferentes habilidades? Para essa pergunta pode haver um repertório diverso de respostas, mas um ponto está claro: não será a partir de aulas e atividades unicamente expositivas, que não convidam à participação e interação, que pretendem apenas “depositar” conteúdos em alunos passivos.

John Dewey, filósofo e pedagogo, já entre os séculos 19 e 20 escrevia sobre a importância da aprendizagem acontecer por meio da experiência. Para ele, a educação é “uma constante reconstrução da experiência, de forma a dar-lhe cada vez mais sentido e a habilitar as novas gerações a responder aos desafios da sociedade”. Por isso, dizia ainda que “a educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida”.

Assim, é preciso colocar crianças, adolescentes em jovens em contato com atividades práticas, situações de experimentação, que possam relacionar teoria e prática, não apenas colocando-os em ação, mas que haja reflexão sobre a ação.

Sobre isso, os autores Charles Fadel, Maya Bialik e Bernie Trilling, no livro Educação em quatro dimensões, trazem:

“Estudos indicam que, quando o conhecimento é aprendido de forma passiva, sem engajamento, é geralmente aprendido apenas superficialmente (o conhecimento pode ser memorizado, mas não compreendido, não facilmente reutilizável ou pode ser efêmero) e, portanto, não é prontamente transferido a novos contextos.”

O movimento, portanto, não é o de colocar conteúdo de um lado e habilidades de outro, mas, unindo-os em processos de aprendizagem significativos, por meio da experiência e participação dos estudantes, garantir uma educação cada vez mais voltada ao indivíduo em sua integralidade, preparando-o para os desafios do mundo contemporâneo.


Carol Miranda

Cientista Social e Produtora de conteúdo na área da Educação