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Você já leu ou ouviu falar sobre o termo VUCA? A sigla, em inglês, começou a ser usada no final da década de 1980 para tentar descrever o mundo pós-Guerra Fria. Em português, ela apresenta as características deste cenário como: volatilidade, incertezas, complexidade e ambiguidade. Ou seja, vivemos atualmente em um mundo conectado, em que a interdependência entre economias e sociedades cresce a cada dia, com tecnologias que proporcionam transformações muito rápidas. As informações estão em diferentes lugares, o conhecimento cresce de forma exponencial e, com isso, temos uma infinidade de opções e caminhos a seguir.

Diante disso, a criança, o adolescente e o jovem do século 21 certamente não são os mesmos que estavam na escola em décadas passadas. Eles estão conectados, se comunicam a todo instante por meio das diferentes mídias e linguagens disponíveis, compartilhando selfies e curtindo memes. Têm tudo a mão, acostumados com os atuais serviços on demand, ou “sob demanda“, com os quais assistem o que quiserem, na hora que quiserem. Além, é claro, de contarem com a ajuda do Google.

“Essas crianças habitam, então, o virtual. (…) Essas crianças podem manipular várias informações ao mesmo tempo. Não conhecem, não integralizam nem sintetizam da mesma forma que nós, seus antepassados.”

Michel Serres, no livro A Polegarzinha

É por meio das redes sociais que adolescentes e jovens encontram pertencimento, seja por encontrarem pessoas com gostos parecidos, seja por se identificarem com uma causa. Por outro lado, a hiperconectividade e a distribuição de informações não conseguiram resolver — e muitas vezes podem até atrapalhar — a forma como essa geração lida com suas emoções, frustrações, pressões e situações de conflito. Dados mostram, por exemplo, que as taxas de suicídio de crianças e adolescentes no Brasil estão aumentando nas últimas décadas.

Do ponto de vista do mundo do trabalho, o relatório The future of Jobs (“O futuro dos trabalhos”), apresentado no Fórum Econômico Mundial, estimou que 65% das crianças que entram no Ensino Fundamental hoje irão trabalhar em profissões ou funções completamente novas, que não existem ainda. Não sabemos, portanto, ainda que tipos de competências ou conhecimentos específicos demandarão.

E a educação com isso?

Neste cenário, a educação contemporânea se depara com o desafio de formar pessoas que atuem de maneira ética, empática e crítica, que saibam fazer escolhas responsáveis e tenham capacidade de lidar com situações complexas. O papel da escola do século 21 deve ir além do ensino dos conhecimentos das disciplinas tradicionais, atuando pelo desenvolvimento integral dos estudantes, considerando igualmente suas dimensões cognitiva, sensorial-motora e socioemocional.

Essa compreensão tem como um de seus marcos o relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI para a UNESCO, publicado em 1996 e intitulado “Educação, um Tesouro a descobrir”. O relatório, que ficou conhecido pelo nome do presidente da Comissão, Jacques Delors, estabeleceu quatro pilares para a educação do novo século: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

Nas quatro dimensões, há uma provocação da Comissão para que, mais do que uma transmissora de conhecimento, a escola seja um espaço para o desenvolvimento de competências, em que os estudantes descubram seus potenciais e desafios, aprendam a se relacionar com as outras pessoas e com o mundo e a tomar decisões responsáveis.

A BNCC, documento brasileiro de caráter normativo, homologada em 2017 e que define o conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos e alunas devem desenvolver na educação básica, retoma as Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Básica trazendo como pilar a “formação humana integral”.

texto introdutório da BNCC explicita o compromisso que a educação brasileira deve ter com a educação integral e coloca a criança, o adolescente, o jovem e o adulto como sujeitos da aprendizagem. A escola, nesta abordagem, é convocada a promover uma educação acolhedora e que reconheça as singularidades e diversidade de seus estudantes.

Contexto, protagonismo, aprendizagem, projeto de vida e desenvolvimento de competências são conceitos que levam esta abordagem para a prática.

Essa visão de desenvolvimento integral nasce, portanto, do contexto descrito: conectada com as demandas do século 21, alinhada à BNCC e com foco no estudante. Nesta abordagem, não se parte de uma visão única da criança ou adolescente que queremos formar, ou como o indivíduo deve ser, mas da defesa do direito dos estudantes de se desenvolverem integralmente a partir de conhecimentos e experiências que promovam autonomia.

Competências e habilidades

A reflexão sobre a importância de uma educação com foco no desenvolvimento de competências e habilidades ganhou espaço entre os estudiosos da área no final da década de 1990, sendo um dos destaques o sociólogo Philippe Perrenoud. Para ele, competência é “mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações etc.) para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações”.

Já as habilidades têm caráter mais específico: enquanto as competências configuram-se como abstratas e amplas, as habilidades traduzem-se em prática real, perceptível e observável que tem influência sobre o real e concreto. Competências, portanto, se compõem em habilidades, na linha exata do que estabelece a própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC). No documento, por exemplo, a competência é definida como “mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”.

Para promover o desenvolvimento integral dos estudantes, é importante que as competências socioemocionais sejam consideradas e trabalhadas de maneira planejada e intencional tanto quanto as cognitivas.

Por um lado, as competências cognitivas são aquelas historicamente priorizadas e trabalhadas pela escola, compostas por habilidades relacionadas à memória, argumentação, pensamento crítico, resolver problemas, refletir, entender relações, pensar abstratamente, generalizar aprendizados.

Já as competências socioemocionais dizem respeito a capacidade que a pessoa tem de lidar consigo mesma, com os outros e com o mundo, podendo incluir, assim, habilidades ligadas a dimensões como: autoconhecimento, responsabilidade, iniciativa, flexibilidade, perseverança, abertura a novas experiências, percepção social, comunicação, colaboração e resolução de conflitos.

Na definição da organização norte-americana Collaborative for Academic, Social and Emotional Learning (CASEL):

“A aprendizagem social e emocional é o processo através do qual crianças e adultos adquirem e aplicam eficazmente os conhecimentos, atitudes e habilidades necessárias para compreender e gerir emoções, estabelecer e alcançar objetivos positivos, sentir e demonstrar empatia pelos outros, estabelecer e manter relacionamentos e tomar decisões responsáveis”.

As competências socioemocionais frequentemente são descritas por meio de outros nomes, como “habilidades não cognitivas” ou “soft skills”, mas acabam diferindo mais na nomenclatura do que no que realmente são. Vale ressaltar, contudo, que classificá-las como “não cognitivas” pode ser considerado um equívoco, uma vez que o desenvolvimento das competências socioemocionais também envolve processos cognitivos.

Na prática, é essencial que, ao colocarem como foco o desenvolvimento integral dos estudantes, escolas e redes de ensino construam projetos pedagógicos e currículos que tragam a aprendizagem intencional, planejada e integrada de competências nas dimensões cognitiva e socioemocional.


Carol Miranda

Cientista Social e Produtora de conteúdo na área da Educação