Uma conversa sobre a BNCC na prática

por | ago 30, 2018 | Artigo, BNCC

Ricardo Paes de Barros, Anna Penido, Douglas Ready, João Cury Neto, Charles Fadel e Letícia Lyle | Foto: André Tortorelli

Como colocar em prática a Base Nacional Comum Curricular? Este foi o mote da conversa entre diferentes profissionais da área de educação em evento realizado pelo Instituto SOMOS no dia 16 de agosto, em São Paulo.

Com mediação da diretora do Instituto SOMOS, Letícia Lyle, a primeira mesa debateu os desafios de implementação da BNCC na sala de aula e contou com a participação de Tereza Perez, diretora da Comunidade Educativa CEDAC, Juliana Diniz, diretora dos Colégios Sigma (Brasília) e Integrado (Goiânia), Miguel Thompson, diretor executivo do Instituto Singularidades, e Di Gianne de Oliveira Nunes, professor de História em Minas Gerais e finalista do Prêmio Educador Nota 10.

Os participantes fizeram um breve resgate e valorização das conquistas e construções na educação brasileira anteriores à BNCC, como os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e programas como o Profa (Programa de Formação de Professores Alfabetizadores). Miguel destacou a importância de o Brasil produzir pesquisas sobre estes processos históricos, a fim de construir políticas, e deixarmos de “jogar fora” o que tem sido feito. Já Tereza destacou a importância do regime de colaboração entre municípios e estados na busca pela implementação da Base. Para isso, segundo ela, é preciso implementar também na área da educação uma “cultura profissional de colaboração”.

Juliana e Di Gianni compartilharam suas experiências com a Base nas escolas onde atuam. A diretora afirmou que a BNCC é, ainda, um documento desconhecido nas escolas e contou um pouco do caminho que vem percorrendo, de formação da gestão escolar. O processo passa, inclusive, pelos pressupostos teóricos e filosóficos da BNCC. Para ela, a tarefa de pensar nos currículos atuais e seu alinhamento à Base é um desafio coletivo das escolas e redes.

Di Gianni, que é professor na educação prisional, chamou a atenção para a ausência dessa modalidade educacional na Base e relatou suas práticas com aulas contextualizadas com o cotidiano de seus alunos.

Di Gianne de Oliveira, Miguel Thompson, Letíca Lyle, Juliana Diniz e Tereza Perez | Foto: André Tortorelli

Os participantes da primeira mesa ainda levantaram reflexões sobre a BNCC não ser um consenso entre os diversos atores envolvidos, a importância de incentivarmos a circulação também de boas notícias na educação e a urgência da discussão sobre a formação de professores.

O momento de emoção da manhã ficou por conta da homenagem a Telma Weisz, com o lançamento da edição comemorativa de seu livro “Diálogos entre Ensino e Aprendizagem”. Beatriz Gouveia, Diretora Pedagógica de Escolas na SOMOS Educação, relembrou a importância da especialista na formação de milhares de professores e professoras alfabetizadores brasileiros.

Na sequência, Renato Nunes Dias, responsável pela área de Currículo, Avaliação e Qualidade da Somos Educação, apresentou a plataforma BNCC na Prática, ferramenta de construção de currículos e planejamento escolar vinculada à Base. A plataforma faz parte do ecossistema de soluções voltadas ao professor da SOMOS Educação: o PROFS Educação, ambiente de reflexão com soluções focadas em três pilares:

· Formação de Professores, com cursos certificados online;

· Currículo, que dá acesso à plataforma de construção de currículos BNCC na Prática;

· Conteúdo, de caráter formativo, em que está este Blog.

Renato Nunes Dias e Letícia Lyle | Foto: André Tortorelli

Como destaque do evento, o convidado Charles Fadel, membro do Center for Curriculum Redesign, começou sua apresentação questionando o público sobre qual é a educação relevante para os alunos do século 21. O que é importante ensinar, em um mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo?

Segundo ele, o mundo de hoje exige tanto os conhecimentos tradicionalmente considerados pela escola como matemática e linguagens, quanto demanda ao aluno que consiga compreender outros temas, como sustentabilidade, ética etc. Além disso, destacou a importância do desenvolvimento do caráter e das chamadas habilidades para o século XXI: criatividade, pensamento crítico, comunicação e colaboração.

Charles Fadel | Foto: André Tortorelli

O pesquisador pontuou que as necessidades de aprendizado são muito parecidas nos diversos lugares, embora as estruturas variem de acordo com o país ou a organização. Ainda assim, nas palavras de Fadel:

“É preciso entender que tudo tem a ver com meta-aprendizado: aprender como aprender. Conforme as condições mudam ao logo da vida você está constantemente aprendendo sozinho, não há nenhuma garantia.”

O convidado fez uma breve análise da estrutura da BNCC, em especial de suas competências e habilidades. Apresentou o trabalho que vem sendo feito por sua equipe, em parceria com a SOMOS Educação, de aprofundamento das competências da Base em relação às habilidades para o século XXI e de como podem ser levadas para a prática de sala de aula.

Deixou ainda como questionamentos: como cobrir todos os aspectos da BNCC? O que é mais importante para o desenvolvimento em cada disciplina? Como demonstrar que um aluno é um ouvinte ativo? Como ensinar criatividade ou resiliência durante as aulas de uma disciplina?

Com o objetivo de debater a implementação da BNCC, a última mesa do evento reuniu Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare, Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna | Edulab 21, João Cury Neto, atual Secretário de Educação do Estado de São Paulo, Douglas Ready, professor na Columbia University e Charles Fadel, membro do Center for Curriculum Redesign (CCR).

Anna Penido destacou a importância da formação integral no texto introdutório da BNCC. Para ela, devemos procurar entender o tipo de educação que se quer prover, do contrário, qualquer política pública relacionada funcionará apenas como maquiagem. Completou ainda com a importância de se pensar como as escolas serão avaliadas, se continuaremos com avaliações externas por disciplinas ou se passaremos também a avaliar questões como o nível de realização dos alunos.

Ricardo Paes de Barros espera que uma base comum curricular consiga reunir conteúdo de alta qualidade, uma vez que a finalidade de se instituir algo comum é conseguir equidade, garantir que seja passível de adoção por todos.

Para ele, é a qualidade da proposta da BNCC que trará alguma contribuição à educação, portanto cada item da BNCC deve ser discutido e melhorado para atingir esse objetivo. Os grandes desafios são: tornar a Base compreensível por todos, formar professores e desenvolver materiais e métodos de avaliação adequados.

Para João Cury Neto, a homologação da BNCC deve instigar a valorização e manutenção dos quadros de professores, uma vez que o foco é a formação continuada. O secretário apresentou algumas questões: de que forma podemos unir e articular toda a rede educacional brasileira, que é tão cheia de particularidades? Como trabalhar as habilidades e competências considerando as características de cada comunidade? Como garantir a implementação da Base em um cenário de descontinuidade das políticas públicas no Brasil?

As perguntas levantadas por Cury foram complementadas por Douglas Ready, ao lembrar que os padrões de ensino, currículo e preparação de professores devem estar alinhados. O convidado recordou que existem claras tensões entre política e educação — ao mesmo tempo, nem as escolas nem os alunos funcionam dentro de ciclos de eleição. Para Douglas, a BNCC tem a ver com mudar práticas de educação e isso é o mais difícil. Ele questiona: se eu fosse uma escola no Brasil, porque eu implementaria a BNCC?

Charles Fadel continuou a discussão lembrando que as soluções tendem a ser bem-sucedidas quando são segmentadas: áreas urbanas e rurais vivem desafios distintos, assim como um centro urbano e sua periferia. Isto posto, de que forma é possível implementar uma política educacional que dê suporte às necessidades educacionais mais básicas de cada localidade?

A mesa ainda destacou que, sendo uma política pautada em equidade e direitos de aprendizagem, as diversas opiniões que existem a respeito da BNCC devem continuar sendo debatidas, tanto na comunidade acadêmica, quanto entre especialistas da área, gestores, professores e entre os alunos — aqueles que mais sentirão as consequências da BNCC.

O assunto está longe de estar esgotado e deve ser amplamente discutido por todos e todas, para que cada ponto da implementação da Base seja claro, aplicável e passível de avaliação.

Para ver a transmissão completa do evento, acesse: BLOCO1 e BLOCO2

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